domingo, 5 de junho de 2011

Encontro


O pai de Stefan quando jovem morou no Afeganistão e deu uma boa volta por países muçulmanos da Ásia. Gostou da Síria, especialmente da cidade de Alepo.
Stefan quis seguir os passos do pai e embarcou numa viagem parecida quando, com vinte-e-poucos anos, se sentiu preparado.
No ônibus, antes mesmo de chegar em Alepo, Stefan conhece a Ahmad, que lhe convida a ficar uns dias em sua casa.
Ahmad havia se adaptado muito bem no Irã onde morou muitos anos, graduou-se em Medicina, casou-se e começou a estudar alemão. Anos depois, de volta à Síria, se animou bastante ao conhecer Stefan, com quem poderia praticar o idioma alemão. Ajudou Stefan a procurar um apartamento para alugar por um mês em Alepo, já que o Stefan gostou tanto da cidade e resolveu ficar mais tempo.
(…)
Norton, quando tinha 16 anos, queria fazer intercâmbio para um lugar bem longe do Brasil. Chantal, sua irmã, recém retornada da Turquia, lhe convence a morar lá e ele vai.
Dez anos depois, Norton, com muita saudade, retorna à Turquia para visitar antigos amigos e decide conhecer outros países do Oriente Médio, entre eles a Síria.
Escreve, por meio de uma rede social de viajantes da qual participa, a Ahmad, perguntando se poderia ficar em sua casa por uns dias enquanto estivesse em Alepo. Ahmad sente em não poder ajudá-lo e sugere que escreva a seu amigo austríaco, Stefan.
Stefan concorda em hospedar Norton em sua casa e lhe apresenta pessoalmente Ahmad.
Logo, Stefan revela a Norton que só tem mais dois dias na cidade porque deixaria sua casa e continuaria e viajar pela região. Discutindo um pouco, descobrem que os roteiros que haviam planejado para suas próximas semanas eram quase idênticos.
Norton e Stefan arriscam viajar juntos mesmo quase sem se conhecerem. Tornam-se grandes amigos enquanto passam quatro semanas pela Síria, pelo Líbano, pela Jordânia e por Israel.
(…)
Lia, mãe de Norton, queria visitar, com sua irmã Alice, sua prima Maricy.
Maricy mora em Munique, na Alemanha, há muitos anos porque seu marido Schutz conseguiu uma boa oportunidade de trabalho de volta ao seu país.
Pela proximidade que Munique tem com a Áustria, Norton sugere a sua mãe que visite Viena, cidade da qual gostou muito e onde mora seu amigo Stefan.
Norton escreve a Stefan, depois de seis meses sem encontrar-lhe, dizendo que sua mãe iria a Viena e que gostaria que eles se encontrassem.
Stefan recebe Lia e Alice em sua casa por uns dias e as leva a conhecer Baden, cidade a 25 kilómetros de Viena e onde moram seus pais.
Seus pais convidam a Lia e Alice para almoçar em sua casa.
E Lia conhece o pai de Stefan.

sábado, 21 de maio de 2011

Aprender a ler


Não sei dizer quando na minha vida me deu click na cabeça e passei a ser um viciado em aprender idiomas. É um vício gostoso, que expande horizontes e enriquece a alma. Lembro do Sedat, meu “pai turco”, dizer repetidamente "uma língua, um homem; duas línguas: dois homens; e assim vai". Eu concordava e complementava "uma língua, uma visão de mundo; uma língua, uma poesia única".
O mundo das línguas é infinito. Algumas já morreram, mas ainda sim são muitas e muito complexas. Se cada habitante do mundo passa a vida inteira aprendendo a sua própria e nunca chega à perfeição, imagine multiplicar isso por dois, três ou quatro?
De uma para outra, temos tarefas mais fáceis e mais difíceis. O espanhol, para a maioria dos lusófonos, é bastante fácil. Palavras parecidas, raciocínios parecidos, fonética parecida, escrita quase igual. Outros idiomas, de cara, causam medo, especialmente pelos seus alfabetos supostamente estranhos, esdrúxulos e complicados. Pelo menos, à primeira vista, é o que nos parece, não?
Os primeiros idiomas que aprendi na escola, inglês e francês, usam o alfabeto latim. Meu próximo idioma foi o turco, que usa também o mesmo alfabeto. Até aí, tudo relacionado a ler e escrever foi uma tarefa bastante mecânica, afinal, meu idioma de origem é o mesmo em que escrevo agora, com as, bes, ces entre outras letras que vocês conhecem bem.
Comecei a me aventurar por esse mundo das letras, quando morava na Turquia. Tinha um amigo grego, a quem obriguei a me ensinar alfas, betas, gamas, ípsilons, deltas, ômegas. As aulas de física e química ajudaram e decorar aquilo rapidamente. Uma vez memorizado, parti, de maneira autodidata, para a escrita russa. Os russos, por terem herdado a religião cristã ortodoxa dos gregos, levaram junto boa parte dos caracteres da escrita, deixando a minha tarefa de aprender menos complicada do que se imagina.
Não muito depois, conheci a um israelense em Buenos Aires que logo depois hospedei em São Paulo por uns dias. Ele me ensinou o belíssimo alfabeto hebraico. Deu um pouco de trabalho… as letras parecem todas iguais.
Até aí, não tive grande dificuldade. Botei a memória visual para trabalhar e cheguei lá.
Quando comecei a visitar países árabes, foi que levei uma boa rasteira pela minha arrogância lingüística. Achei que em poucos dias, assim como na Grécia, na Sérvia - onde usam o mesmo alfabeto dos russos - e na Geórgia - que tem um alfabeto próprio e bem diferente -, gravaria na cabeça uma letra, outra, outra mais, até completar a alfabeto árabe inteiro! Durante um mês vendo escritos e mais escritos na língua árabe, com uma vontade enorme em aprender, meu saldo final foi de uma só letra: o Alef, equivalente ao nosso A.
Essa frustração foi, no final da história, um excelente impulso para me matricular num curso no Centro Cultural Árabe-Sírio de São Paulo e tentar o improvável: aprender a ler árabe. Lá, finalmente, descobri o segredo dos árabes: as letras mudam de forma quando estão no começo, no meio ou no fim da palavra.
Logo, se alfabeto árabe tem 28 caracteres, vezes 3 - para começo, meio e fim -, são 84, certo? Com mais 3 letras especiais são 87! Levei uns dois meses para dominá-las.
E, agora, cada vez que consigo ler uma palavra em árabe parece um milagre...

domingo, 17 de abril de 2011

Verão de 96 (parte 1)


Foi um verão daqueles que não fiz questão nenhuma de sair de São Paulo em janeiro.
Meu primo, Eduardo, por treinar pólo aquático quase todos os dias da semana, conhecia a galera bem melhor que eu, o que fazia com que ele tivesse informações frescas sobre o que rolava no Clube.
Uma delas foi descobrir que, de manhã, estavam abrindo o trampolim da piscina para quem quisesse. Não era um trampolim qualquer, era o do Clube Pinheiros: com um relógio no topo, quatro andares e, em frente a uma “planície” de piscinas, parecia um arranha-céu. Mas eu já tinha 14 anos! Enquanto eu crescia, ele diminuia…
Deram um ou dois dias para que só assistíssemos, de longe, os mais experientes pularem. Os que pulavam de cabeça ou de mortal tinham mais moral perante o resto.
Ninguém se referia aos andares seguindo uma ordem cardinal lógica, e sim uma ordem baseada nos metros de altura que tinham. O segundo era chamado de quinto e o quarto, e último, de décimo. Fazia sentido, pois, na cabeça de um adolescente, dizer que pulou do quarto não é o mesmo que do décimo!
Começamos pelo quinto. Subimos os dois. Às vezes alguém pedia licença ou perguntava se estávamos na fila. Tinha espaço para meia duzia de pessoas lá em cima. A grade era precária, fazendo eu me perguntar o que poderia acontecer se começasse uma briga, afinal sabemos bem o quanto um quer mostrar que é mais macho que o outro nessa idade. O clima de amizade, ainda bem, prevalecia.
Não lembro, juro que não lembro, quem pulou antes. Só lembro que foi um e logo depois o outro. Adoramos a brincadeira e nos próximos pulos já não eram 20 minutos de espera. Já não dava tempo de pedirem licença. Subir do quinto para o sétimo e, logo depois, para o décimo foi fácil.
A diferença do décimo é que, enquanto você está no ar, tem impressão de que o nível de adrenalina ou a falta de controle de situação é um pouco maior, o que deixava a experiência mais saborosa.
Depois de tirar o décimo de letra, Edu e Norton podiam fazer tudo o que quisessem. Pareciam até os super-heróis do jogo de cartas que jogavam à tarde, naquele mesmo verão.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Vida é um Milagre

foi uma frase que comecei a repetir a mim mesmo cada vez que me encontro numa situação de felicidade plena:
quando alguma coisa especial dá certo e eu consigo, ainda que por um breve instante, sorrir por dentro e por fora ao mesmo tempo;
quando me arrepio e me arrepio só de pensar na razão que me fez arrepiar;
quando choro de alegria mesmo tentando segurar.


Aqui, pretendo compartilhar alguns momentos em que a minha vida e a das pessoas que me cercam revelam-se um milagre. Um milagre não divino mas das nossas próprias escolhas.

O título, optei por escrevê-lo em catalão: língua que aprendi a respeitar, gostar, ler, escrever, ouvir e falar.