sábado, 21 de maio de 2011

Aprender a ler


Não sei dizer quando na minha vida me deu click na cabeça e passei a ser um viciado em aprender idiomas. É um vício gostoso, que expande horizontes e enriquece a alma. Lembro do Sedat, meu “pai turco”, dizer repetidamente "uma língua, um homem; duas línguas: dois homens; e assim vai". Eu concordava e complementava "uma língua, uma visão de mundo; uma língua, uma poesia única".
O mundo das línguas é infinito. Algumas já morreram, mas ainda sim são muitas e muito complexas. Se cada habitante do mundo passa a vida inteira aprendendo a sua própria e nunca chega à perfeição, imagine multiplicar isso por dois, três ou quatro?
De uma para outra, temos tarefas mais fáceis e mais difíceis. O espanhol, para a maioria dos lusófonos, é bastante fácil. Palavras parecidas, raciocínios parecidos, fonética parecida, escrita quase igual. Outros idiomas, de cara, causam medo, especialmente pelos seus alfabetos supostamente estranhos, esdrúxulos e complicados. Pelo menos, à primeira vista, é o que nos parece, não?
Os primeiros idiomas que aprendi na escola, inglês e francês, usam o alfabeto latim. Meu próximo idioma foi o turco, que usa também o mesmo alfabeto. Até aí, tudo relacionado a ler e escrever foi uma tarefa bastante mecânica, afinal, meu idioma de origem é o mesmo em que escrevo agora, com as, bes, ces entre outras letras que vocês conhecem bem.
Comecei a me aventurar por esse mundo das letras, quando morava na Turquia. Tinha um amigo grego, a quem obriguei a me ensinar alfas, betas, gamas, ípsilons, deltas, ômegas. As aulas de física e química ajudaram e decorar aquilo rapidamente. Uma vez memorizado, parti, de maneira autodidata, para a escrita russa. Os russos, por terem herdado a religião cristã ortodoxa dos gregos, levaram junto boa parte dos caracteres da escrita, deixando a minha tarefa de aprender menos complicada do que se imagina.
Não muito depois, conheci a um israelense em Buenos Aires que logo depois hospedei em São Paulo por uns dias. Ele me ensinou o belíssimo alfabeto hebraico. Deu um pouco de trabalho… as letras parecem todas iguais.
Até aí, não tive grande dificuldade. Botei a memória visual para trabalhar e cheguei lá.
Quando comecei a visitar países árabes, foi que levei uma boa rasteira pela minha arrogância lingüística. Achei que em poucos dias, assim como na Grécia, na Sérvia - onde usam o mesmo alfabeto dos russos - e na Geórgia - que tem um alfabeto próprio e bem diferente -, gravaria na cabeça uma letra, outra, outra mais, até completar a alfabeto árabe inteiro! Durante um mês vendo escritos e mais escritos na língua árabe, com uma vontade enorme em aprender, meu saldo final foi de uma só letra: o Alef, equivalente ao nosso A.
Essa frustração foi, no final da história, um excelente impulso para me matricular num curso no Centro Cultural Árabe-Sírio de São Paulo e tentar o improvável: aprender a ler árabe. Lá, finalmente, descobri o segredo dos árabes: as letras mudam de forma quando estão no começo, no meio ou no fim da palavra.
Logo, se alfabeto árabe tem 28 caracteres, vezes 3 - para começo, meio e fim -, são 84, certo? Com mais 3 letras especiais são 87! Levei uns dois meses para dominá-las.
E, agora, cada vez que consigo ler uma palavra em árabe parece um milagre...