Não sei dizer quando na minha vida me deu click na cabeça e passei a ser um viciado em aprender idiomas. É um vício gostoso, que expande horizontes e enriquece a alma. Lembro do Sedat, meu “pai turco”, dizer repetidamente "uma língua, um homem; duas línguas: dois homens; e assim vai". Eu concordava e complementava "uma língua, uma visão de mundo; uma língua, uma poesia única".
O mundo das línguas é infinito. Algumas já morreram, mas ainda sim são muitas e muito complexas. Se cada habitante do mundo passa a vida inteira aprendendo a sua própria e nunca chega à perfeição, imagine multiplicar isso por dois, três ou quatro?
De uma para outra, temos tarefas mais fáceis e mais difíceis. O espanhol, para a maioria dos lusófonos, é bastante fácil. Palavras parecidas, raciocínios parecidos, fonética parecida, escrita quase igual. Outros idiomas, de cara, causam medo, especialmente pelos seus alfabetos supostamente estranhos, esdrúxulos e complicados. Pelo menos, à primeira vista, é o que nos parece, não?
Os primeiros idiomas que aprendi na escola, inglês e francês, usam o alfabeto latim. Meu próximo idioma foi o turco, que usa também o mesmo alfabeto. Até aí, tudo relacionado a ler e escrever foi uma tarefa bastante mecânica, afinal, meu idioma de origem é o mesmo em que escrevo agora, com as, bes, ces entre outras letras que vocês conhecem bem.
Comecei a me aventurar por esse mundo das letras, quando morava na Turquia. Tinha um amigo grego, a quem obriguei a me ensinar alfas, betas, gamas, ípsilons, deltas, ômegas. As aulas de física e química ajudaram e decorar aquilo rapidamente. Uma vez memorizado, parti, de maneira autodidata, para a escrita russa. Os russos, por terem herdado a religião cristã ortodoxa dos gregos, levaram junto boa parte dos caracteres da escrita, deixando a minha tarefa de aprender menos complicada do que se imagina.
Não muito depois, conheci a um israelense em Buenos Aires que logo depois hospedei em São Paulo por uns dias. Ele me ensinou o belíssimo alfabeto hebraico. Deu um pouco de trabalho… as letras parecem todas iguais.
Até aí, não tive grande dificuldade. Botei a memória visual para trabalhar e cheguei lá.
Até aí, não tive grande dificuldade. Botei a memória visual para trabalhar e cheguei lá.
Quando comecei a visitar países árabes, foi que levei uma boa rasteira pela minha arrogância lingüística. Achei que em poucos dias, assim como na Grécia, na Sérvia - onde usam o mesmo alfabeto dos russos - e na Geórgia - que tem um alfabeto próprio e bem diferente -, gravaria na cabeça uma letra, outra, outra mais, até completar a alfabeto árabe inteiro! Durante um mês vendo escritos e mais escritos na língua árabe, com uma vontade enorme em aprender, meu saldo final foi de uma só letra: o Alef, equivalente ao nosso A.
Essa frustração foi, no final da história, um excelente impulso para me matricular num curso no Centro Cultural Árabe-Sírio de São Paulo e tentar o improvável: aprender a ler árabe. Lá, finalmente, descobri o segredo dos árabes: as letras mudam de forma quando estão no começo, no meio ou no fim da palavra.
Essa frustração foi, no final da história, um excelente impulso para me matricular num curso no Centro Cultural Árabe-Sírio de São Paulo e tentar o improvável: aprender a ler árabe. Lá, finalmente, descobri o segredo dos árabes: as letras mudam de forma quando estão no começo, no meio ou no fim da palavra.
Logo, se alfabeto árabe tem 28 caracteres, vezes 3 - para começo, meio e fim -, são 84, certo? Com mais 3 letras especiais são 87! Levei uns dois meses para dominá-las.
E, agora, cada vez que consigo ler uma palavra em árabe parece um milagre...
Alef. Lam. Mim.
ResponderExcluirInvejinha de você que ta aprendendo...
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